Quando o cansaço não é apenas cansaço

Você dorme, tira férias, tenta diminuir o ritmo, mas continua se sentindo cansada(o)? Talvez o que esteja acontecendo não seja apenas falta de descanso.
Há pessoas que chegam à terapia dizendo que estão cansadas. Dormem, tiram férias, tentam diminuir o ritmo, mas a sensação permanece. Não é exatamente um cansaço físico. É como se houvesse uma dificuldade de desligar, de se permitir parar, de simplesmente não estar fazendo alguma coisa.
Talvez porque, para muitas pessoas, descansar tenha se tornado mais difícil do que trabalhar.
Vivemos em uma rotina que valoriza a produtividade, a disponibilidade e a capacidade de resolver problemas. Aprendemos a responder rapidamente, a cumprir compromissos, a cuidar dos outros e a seguir funcionando mesmo quando alguma coisa dentro de nós pede atenção. Com o tempo, dar conta de tudo pode deixar de ser apenas uma necessidade e passar a fazer parte da maneira como nos percebemos.
É quando começamos a acreditar que precisamos ser fortes o tempo todo, que não podemos decepcionar, que pedir ajuda deveria ser o último recurso e que nossas próprias necessidades podem esperar um pouco mais.
Só que esse “depois eu vejo” pode se prolongar por muito tempo.
E nem sempre o sofrimento aparece de uma forma evidente. Às vezes, ele surge como irritação, falta de entusiasmo, dificuldade de concentração, vontade de se afastar das pessoas ou uma sensação persistente de que a vida se transformou em uma sequência de obrigações.
Por fora, tudo continua funcionando.
Por dentro, alguma coisa começa a perder o sentido.
É comum que, nesse momento, a pessoa tente encontrar uma explicação objetiva para aquilo que sente. Talvez esteja trabalhando demais. Talvez precise de férias. Talvez seja apenas uma fase. E, muitas vezes, realmente existem mudanças concretas que precisam ser feitas. Mas também pode ser importante olhar um pouco além da rotina e perguntar o que, emocionalmente, tem exigido tanto esforço.
Quanto custa tentar agradar a todos? Quanto custa não conseguir dizer não? Quanto custa precisar ter controle sobre tudo? Quanto custa sustentar durante anos uma imagem de alguém que sempre consegue?
Nem sempre estamos cansados apenas daquilo que fazemos. Às vezes, estamos cansados daquilo que precisamos ser.
Perceber isso não significa abandonar responsabilidades ou transformar a própria vida de uma hora para outra. Significa começar a compreender o que está acontecendo antes que o corpo ou as emoções precisem interromper aquilo que, durante tanto tempo, seguimos tentando sustentar.
A psicoterapia pode ser um espaço para esse tipo de investigação. Não para oferecer respostas prontas, mas para permitir que aquilo que muitas vezes permanece confuso ou sem nome possa ser pensado com mais cuidado.
Porque nem todo cansaço se resolve descansando.
Alguns nos convidam a olhar para a forma como estamos vivendo, para os lugares que ocupamos nas relações e, principalmente, para aquilo que deixamos de lado em nós mesmos.
Talvez cuidar de si comece justamente quando deixamos de perguntar apenas “como posso continuar dando conta?” e começamos a perguntar “o que está acontecendo comigo?”
Por Carla Fiorim Comerlato - Psicóloga CRP 07/19711
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