Quando ser forte o tempo todo começa a custar caro

Há pessoas que aprenderam a cuidar de tudo e de todos, mas nunca aprenderam a reconhecer quando também precisam de cuidado.
Ao longo da vida, muitas pessoas desenvolvem uma capacidade admirável de seguir em frente. Mesmo diante das dificuldades, encontram maneiras de trabalhar, cuidar da família, cumprir compromissos e atender às expectativas que recaem sobre elas.
Por fora, parecem dar conta de tudo. Por dentro, podem estar cansadas, preocupadas e distantes das próprias necessidades.
Nem sempre esse sofrimento é percebido pelos outros. Às vezes, nem mesmo a própria pessoa consegue reconhecê-lo. Afinal, quando aprendemos que precisamos ser fortes, podemos passar a interpretar o cansaço como fraqueza, a necessidade de ajuda como incapacidade e o descanso como algo que precisa ser merecido.
Com o tempo, viver dessa maneira pode se tornar pesado.
Quando cuidar de si fica sempre para depois
É possível passar anos priorizando as necessidades alheias, evitando conflitos, tentando corresponder às expectativas e assumindo responsabilidades que ultrapassam os próprios limites.
Em alguns casos, esse comportamento está relacionado à história de vida, às relações familiares, às experiências afetivas ou à maneira como cada pessoa aprendeu a conquistar reconhecimento e segurança emocional.
Talvez tenha sido necessário amadurecer cedo demais. Talvez demonstrar sentimentos nunca tenha parecido seguro. Ou talvez dizer “não” tenha se tornado sinônimo de decepcionar alguém.
Essas formas de funcionar não surgem por acaso. Muitas vezes, foram maneiras de lidar com situações difíceis e de preservar vínculos importantes.
O problema começa quando aquilo que um dia ajudou a enfrentar a vida passa a impedir que ela seja vivida com mais liberdade.
A pessoa continua fazendo o que precisa ser feito, mas perde o contato com perguntas fundamentais: O que eu sinto? Do que eu preciso? O que faz sentido para mim neste momento da vida?
Você não precisa esperar chegar ao limite
Existe uma ideia bastante difundida de que precisamos estar muito mal para procurar ajuda psicológica. Como se o sofrimento só merecesse atenção quando já interfere intensamente no trabalho, nos relacionamentos ou na rotina.
Mas a psicoterapia também pode ser um espaço para compreender padrões que se repetem, reconhecer limites, elaborar experiências e construir maneiras mais conscientes de se relacionar consigo e com os outros.
Você pode procurar esse espaço mesmo sem saber exatamente o que está sentindo. Pode chegar com dúvidas, com a sensação de que algo não está bem ou simplesmente com a vontade de se compreender melhor.
Não é necessário ter todas as respostas antes de começar.
O que significa, afinal, cuidar de si?
Cuidar de si não significa deixar de se importar com as pessoas, abandonar responsabilidades ou colocar todas as próprias vontades acima das necessidades dos outros.
Significa reconhecer que você também faz parte da equação.
É perceber que seus limites importam, que seus sentimentos merecem ser escutados e que suas escolhas não precisam ser guiadas exclusivamente pelo medo de desagradar.
É aprender, aos poucos, que nem toda expectativa precisa ser atendida, nem todo conflito precisa ser evitado e nem toda dificuldade precisa ser enfrentada em silêncio.
Esse processo não acontece de uma hora para outra. Exige tempo, reflexão e, muitas vezes, a disposição para olhar com cuidado para aspectos da própria história que foram deixados de lado.
Na psicoterapia, esse percurso pode ser construído respeitando o tempo, a singularidade e as necessidades de cada pessoa.
Talvez você não precise aprender a ser mais forte. Talvez precise encontrar um espaço em que não seja necessário demonstrar força o tempo todo.
Um espaço para compreender sua história, reconhecer o que sente e descobrir outras maneiras possíveis de viver suas relações e de cuidar de si.
Porque cuidar da própria saúde emocional não precisa ser o último item da lista. Pode ser o começo de uma relação mais atenta e respeitosa consigo mesmo.
Por Carla Fiorim Comerlato - Psicóloga Clínica CRP 07/19711


Comentários